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Travessia de Boa Esperança do Lumiar até Sana a pé

Dia 1 de agosto, quarta feira, fiz uma deleitosa caminhada a partir de Boa Esperança de Lumiar até a região de Sana e serras macaenses. Meu passeio durou três dias e fiz todo o percurso sozinho atravessando as mais diversas paisagens além de enfrentar um sol forte sobre o rosto apesar de estarmos na estação fria. Todo começou às 11:30 quando tomei o ônibus saindo do centro de Friburgo cujo destino final é Boa Esperança de Cima, uns 4 km pra lá de Lumiar.

Devo ter iniciado a andança lá por volta de 12:30 ou 12:45 quando saltei em Boa Esperança de Baixo, justamente perto do local onde a santa apareceu na década de 50 segundo uma plaqueta que vi pelo caminho. Peguei uma estrada e fui subindo morro acima até dobrar à esquerda na primeira bifurcação, passar duas pontes, virar à direita e pegar a trilha ao lado da primeira porteira. Este ano cheguei a passar pelo mestro trecho inicial quando fui a São Romão, porém logo no comecinho da trilha os trajetos se diferenciam de modo que precisei dobrar à esquerda e novamente à direita afim de ir em direção à Serra Queimada e sair no Sana.

A subida é bastante cansativa e íngreme causando a impressão de que eu estava subindo uma montanha do Nepal sem neve. A mata encobre todo o visual, mas em alguns trechos é possível avistar os outros montes. Há poucas fontes d`água junto à trilha sendo que somente bem lá nas partes mais altas foi possível encontrar dois filetes dessa importante substância líquida responsável pela constituição do corpo humano. Ouvi vozes de duas pessoas ali perto e os ruídos de um rádio comunicador, mas não cruzei por ninguém até romper pro outro lado. Fiquei na dúvida se os dois homens seriam moradores, turistas ou alguém do governo atuando em serviço. Como na última vez em que vi um guarda florestal no meio do mato tive um revólver apontado pra minha cabeça por ser confundido com um caçador, desejei não encontrá-los naqueles instantes.

Com quase duas horas de pernada cheguei até o alto da Serra Queimada na divisa de Nova Friburgo com Macaé, embora ambas as cidades estejam mais de 100 km distanciadas pelas rodovias. Contudo, a vista é surpreendente e compensa todo o esforço. O local é naturalmente descampado e permite o excursionista enchergar desde os Três Picos de Salinas que fazem limite com Teresópolis até o Litoral no outro lado junto com a Lagoa de Juturnaíba em Silva Jardim e o Pico Peito do Pombo em Sana cuja escalada é feita por audaciosos montanhistas após 4 horas de trilha. Eu me desmontei ao contemplar aquela beleza sem limites sentindo por dentro uma imensa alegria em ter vencido mais um desafio físico. Tal conquista me trouxe a sensação de ter aprimorado um pouco mais o meu conhecimento geográfico sobre a região na qual eu vivo, algo que muita gente local não dá o devido valor.

Se eu estivesse com barraca e todo o equipamento necessário para suportar a longa noite fria, talvez eu ficasse ali para ver as cidades do litoral todas iluminadas e depois sentir os primeiros raios da manhã do segundo dia do mês. Então despedi-me minutos após daquela magnífica visão e prossegui morro abaixo em direção à cabiceira do São bento, um dos afluentes do rio Sana. Novamente mergulhei num outro trecho de mata até chegar num imenso pasto. Foi por ali que encontrei um homem conduzindo um garoto montado num burrinho. Cumprimentei o viajante tirando com ele alguns momentos de prosa.

É incrível como tenho a facilidade de me confundir em terrenos de pasto! Vi rastros de boi pra tudo quanto é lado e que não levam pra lugar algum. Tive que contornar pelo acero da propriedade acompanhando uma cerca de arame farpado até localizar uma porteira mais adiante que dava acesso à continuação da trilha num outro pedaço de mata. Segui por ela até chegar num segundo pasto e reconhecer uma salvadora estrada. Nela, ao ver o primeiro poço no rio, aproveitei para tomar um banho e relaxar a cabeça.

Alguns moradores de São bento me informaram sobre umatalho que me deixaria mais perto do Sana sem que fosse preciso andar por muito tempo pela estrada principal. Após passar por uma árvore alta, fiz conforme me orientaram de modo que subi um pequeno morrinho, atravessei depois uma pinguela e saí próximo à Pousada São Pedro. Dali em diante seriam somente uns 20 minutos, mas rapidamente o dia escureceu. Devo ter gastado pouco mais do que conco horas para completar a minha exaustiva travessia, a qual não aconselho ninguém a fazer sozinho caso não tenha preparo ou desconheça a região.

Procurei pelo único estabelecimento que vendesse um PF à noite naquele dia e fui até a Pensão do Sol Nascente. Pra minha felicidade, peguei o Sana mais vazio e sossegado, entretanto, a regra não é a mesma para os finasi de semana, feriados ou dias de alta temporada. Nessas épocas, os turistas do Rio e Niterói lotam os acampamentos, os bares enchem e o regue no estilo Jamaica-Brasil toma conta das noites. Aliás, a arte e a vida cultural são a tônica do Sana.

Colonizado por suíços no início do século 19, o lugar foi uma rica região produtora de café até 1930 quando houve a crise e Getúlio mandou suspender esta atividade. Depois os moradores que sobreviveram à urbanização passaram a viver da cultura da banana e agora suas principais fontes de renda são o turismo e a pecuária. Há muita gente de fora no Sana, inclusive ex-hippies, e que exploram o comércio local. Todavia, tudo seria paz e amor se não fosse o uso indiscreto de drogas pelos adolescentes e a necessidade de recuperação ambiental que conflita com as pastagens.

E foi justamente por causa do meio ambiente que eu tinha ido até lá, pois eu precisava me informar sobre a organização de um horto de espécies florestais nativas com a ONG Pequena Semente afim de implantar uma sistemática semelhante em meu município. Eu precisava ver de perto como funciona um trabalho de reflorestamento, o qual não é tão simples como se imagina, pois exige dedicação e amor ao que é feito.

Durmi na casa do presidente da Pequena Semente, sr. Márcio do Nascimento. Com a visão atingida pela cegueira, Márcio encherga mais do que muitos sobre a questão ecológica e mantém pelo seu ideal um precioso jardim de mudas muito bem equipado com uma sede, aparelhos para irrigação e empregados. Algumas mudas a ONG vende e outras são exclusivamente destinadas à regeneração da Mata Atlântica tais como o jequitibá rosa, o ipê amarelo, o cedro, o jacarandá, a quaresmeira, o para-raio, o pau-ferro, a sapucaia e a braúna. Vi fruteiras, as quais normalmente são atrativos para os pássaros como um alimento e costumam pegar dentro da mata como por exemplo os pés de ameixa, de cambucá, de jaca, de pitanga e de outras espécies. São frutas que hoje muitos jovens nem conhecem principalmente porque não há mais proveito comercial. Já as espécies arbóreas, ainda que não produzam alimentos, servem de abrigos para as aves que precisam de seus galhos para nidificarem. Assim todo ser vivo cumpre a sua função na formação do ecossistema.

Passei a manhã do dia 2 inteiramente na Fazenda Barra do Sana onde está situado o horto. Parte da gleba é tombada como RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) sendo que por aquela região existem outras propriedades que deram o mesmo exemplo de conservação. Algumas delas se encontram nos municípios de Casimiro de Abreu e de Silva Jardim participando do projeto de preservação do mico-leão-dourado. Nossas horas, no entanto, foram bem proveitosas porque pude trocar muitas idéias sobre como seria a montagem de um horto. Cheguei a conclusão de que é preciso vencer alguns obstáculos como a falta de recursos e o preconceito de algumas pessoas que sempre trabalham contra quem está fazendo algo bem feito.

Despedi-me de Marcio e tomei um caminho que vai de Barra do Sana até Bicuda Pequena, porém não pela trilha e sim por uma estradinha na qual raramente passa algum automóvel. Peguei o forte sol do meio dia sobre a minha cabeça encarando uma serra quase tão alta quanto aquela de Boa Esperança. Do alto, descortina-se uma bela paisagem podendo observar o rio Sana esprimido pelos morros. Pro outro lado, dá pra ver o Litoral com suas cidades, porém, bem mais próximos do que avistados da Serra Queimada. Talvez por isso a pequena localidade que encontrei mais adiante se chame Boa Vista, na qual vivem simples agricultores. Achei pelo caminho dois homens da CERJ (Companhia Energética do Rio de Janeiro ) que me perguntaram se a fruta de uma determinada árvore seria laranja ou limão. Eles vinham de carro desde Bicuda Pequena analisando os medidores estavam com fome. Disse a eles que na dúvida evitassem forrar o estômago com a fruta, pois é o mesmo que levar um tiro chupar limão galego com a barriga vazia.

Com mais de duas horas caminhando passei por uma bifurcação na qual o caminho da direita vai para Serro Frio e o da esquerda descia para Bicuda Pequena. Tão logo avistei a Pedra da Bicuda, uma curiosa formação rochosa ponteaguda que pode ser conquistada após quase 3 horas de caminhada. O arraial de Bicuda fica num buraco de serra em baixas altitudes e à beira de um afluente do rio Macaé. Moram poucas famílias e cachoeiras brotam por toda parte ainda que escondidas do olho de quem anda naquela estrada. Almocei no único restaurante aberto e sem ânimo para continuar a minha peregrinação, fiquei conversando por ali até o final da tarde. A dona do estabelecimento me disse onde se situavam as duas pousadas do lugarejo.

O lugar pode não ter nada pra quem quer um agito noturno, mas é excelente para se ter paz e tranquilidade. O povo é muito religioso e as pessoas ou são batistas ou frequentam a Assembléia de Deus. Não conheci nenhum católico ali embora nopassado todos fossem sendo que uma velha igreja aos poucos ia sendo apagada pelo tempo. Hospedei-me na agradável pousada de Lúcio e Bete, os quais me receberam super bem, têm um excelente papo e sabem dar a merecida atenção ao visitante. Ficamos horas falando sobre meio ambiente, política e da própria sociedade. Durmi lá pelas 21 horas e panquei como uma pedra.

Na sexta feira, dia 3/8, levantei cedo, tomei café com os donos da pousada, conversamos por alguns minutos, mas precisei por novemente meus pés na estrada. Segui pra Cachoeiro de Macaé afim de sair depois na rodovia Serramar que liga Casimiro de Breu a Lumiar. Foi uma caminhada mais leve porque não precisei enfrentar subidas pesadas e o horário estava propício. Em boa parte do trajeto acompanhei o rio Macaé em seus trechos de baixada, porém sempre subindo. Por uns breves instantes tive a companhia de um jovem a cavalo que me informou sobre a difícil realidade de um trabalhador local que precisa se sujeitar à diárias de 10 reais para sobreviver. Graças às prosas com as pessoas do local, fui informado sobre um recente assentamento de sem terras em Bicuda Grande e que felizmente tem progredido bem.

Em Cachoeiro de Macaé fiquei assustado com o baixo volume d`água daquele majestoso rio cuja nascente é em Nova friburgo. Para verificar melhor a situação, fui e voltei por uma ponte antiga construída com arames, cordas e madeira e que balança muito. Sobre ela vi o fundo do leito com suas pedras visíveis. Segundo os moradores, há cada vez menos peixes e atribuí este acontecimento ao esgoto dos povoados mais acima como Sana, Lumiar e São Pedro da Serra. Prosseguindo, vi mais acima uma balsa extraindo areia do rio causando dessa forma o seu rápido assoriamento junto com o aumento das pastagens.

Daquele ponto até a Figueira Branca, na rodovia Serramar, devo ter feito em meia hora o trajeto passando por um trecho em que o Macaé começa a se tornar encachoeirado deixando de ser um rio de planície. Dali pra cima, provavelmente as embarcações que trafegavam no tempo antigo não podiam mais prosseguir. No bar do Moisés, único ponto de referência de Figueira Branca, passei o tempo conversando com um historiador de Rio das Ostras sobre a origem indígena dos nomes e dos fatos que preencheram a colonização. Descobri que o rio Macaé separava as capitanias de São Vicente e de São Tomé por alguns anos do século 16. Nosso papo foi muito proveitoso porque aprendi bastante com aquele animado senho que me pareceu ter um espírito bem jovem e assim como muitos idealistas também se preocupa com a ecologia. Almoçamos por perto e nossa prosa durou até às 16 daquele dia.

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Voltei de carona com um ex vizinho meu de Amparo que me reconheceu. Ele me trouxe boas notícias de lá, inclusive de um tomateiro que eu tinha plantado mo princípio do ano e que agora estava carregado. Chegamos em Friburgo quando começava a anoitecer e ao abrir a porta de minha casa havia muita coisa para se fazer antes que minha noiva chegasse do Rio de Janeiro. Recolhi as cartas, lavei as panelas e fui tomar banho. Satisfeito com o passeio, comecei a escrever este texto.

PLANTAR FLORESTAS PARA TER ÁGUA!

Autor: Rodrigo Luz.
E-mail: [email protected]
Cidade/UF: Friburgo – RJ

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Escrito por Mauricio Oliveira

Maurício Oliveira é social media expert, fotógrafo, videomaker, consultor de turismo, blogueiro, influenciador e empreendedor. CEO do Trilhas e Aventuras, conta suas experiências de viagens no blog Viagens Possíveis e criador de inovadoras ações de marketing de turismo, o BlogTur. Especialista em Expedições na Rota das Emoções e Lençóis Maranhenses. Ama o que faz no seu trabalho e nas horas vagas também gosta de viajar. Siga no Instagram, curta no Facebook, assista no Youtube.

Comentários

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    • Oi Rodrigo, que bacana! O site foi todo remodelado e algumas datas antigas se perderam. Mas ficamos felizes com seu contato. Caso queira voltar a escrever posts pra gente, seria um prazer tê-lo de volta. Grande abraço.

  1. Olá, Maurício.

    Será um grande prazer poder compartilhar com vocês minhas mensagens de aventuras ecoturísticas, as quais, caso não se importe, deixei-as anteriormente registradas em meu blogue. Posso lhe passar os links.

    Infelizmente não tenho fotos dessa caminhada. Na época, eu não costumava levar câmera nos passeios que fazia. Meu colegas de faculdade re4clamavam comigo por que eu não registrava as imagens do passeio, porém posso te garantir que aproveitava melhor sem ter a preocupação de tentar capturar o momento.

    Mas vou lhe passar alguns links que poderá republicar os textos aqui em seu site sem problemas.

  2. Segue aí, Maurício, os links de alguns relatos meus:

    “Recordações das viagens perto de casa”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2014/05/recordacao-das-viagens.html

    “Perdido no Parque Nacional da Tijuca”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2012/06/perdido-no-parque-da-tijuca.html

    “De volta à Ilha Grande”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2013/10/de-volta-ilha-grande.html

    “Saudades da Ilha Grande”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2010/12/saudades-da-ilha-grande.html

    “Trilhos abandonados”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2010/12/saudades-da-ilha-grande.html

    “Turismando perto de casa”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2012/04/turismando-perto-de-casa.html

    “Visitando a Ilha da Marambaia”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2015/07/visitando-marambaia.html

    “No lado selvagem da Ilha”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2014/08/no-lado-selvagem-da-ilha.html

    “A histórica rodovia Mangaratiba – Rio Claro”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2015/09/a-historica-rodovia-mangaratiba-rio.html

    “Olhando para os lírios do campo”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2010/04/olhando-para-os-lirios-do-campo.html

    “Que tal termos uma grande rota turística percorrendo toda a Serra do Mar?”
    http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2013/06/que-tal-termos-uma-grande-rota.html

    As fotos que forem de minha autoria podem ser republicadas sem problema. Qualquer coisa, podem confirmar comigo via email: [email protected]

    Lembrando de outro relato já registrado na internet, torno a compartilhar aqui.

    Abraços.

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