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Nos Caminhos de Guimarães Rosa – Parte 2

O roteiro do personagem Riobaldo

Em Três Marias, deixamos o cenário real para entrarmos no mundo imaginário de Guimarães Rosa, entretanto o que verificamos, logo de inicio, foi uma das grandes preocupações do escritor. Nas anotações realizadas em 1.952, Rosa já revelava a preocupação com os desmatamentos em ritmo crescente. Na época as siderúrgicas mineiras estavam produzindo a pleno vapor, consumindo o carvão vegetal – lenha boa do Cerrado. Hoje, após 50 anos, praticamente toda a região encontra-se ocupada por extensas plantações de eucalipto, salpicadas por pouquíssimas veredas em estado adiantado de assoreamento.

No caminho entre Três Marias e Pirapora nos perdemos no eucaliptal e chegamos numa vila de carvoeiros. As casas eram construções de pau-a-pique. Todos os homens que encontramos pelo vilarejo estavam bêbados, afinal foi dia de pagamento. Já era noite e por sorte encontramos um motociclista que seguia para o mesmo destino e nos guiou.

Em Pirapora, atravessamos a lendária ponte da estrada-de-ferro Marechal Hermes e visitamos o vapor Benjamim Guimarães, o único ainda em condições de navegar pelo Velho Chico. Na seqüência passamos pela Barra do Guaicuí onde ocorre o encontro do Rio das Velhas com o São Francisco; lugar onde Riobaldo declara seu amor por Diadorim. No povoado local há uma igreja em ruínas que, segundo alguns relatos, teve sua construção interrompida quando da disputa de terras entre os jesuítas e os índios que habitavam a região no início do século XVIII. Atualmente a igreja esta recoberta pelas raízes de uma gameleira mostrando que a natureza supera as ações do homem.

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Seguimos margeando o São Francisco ate chegar em Ponto Chique. Após passar por Ibiai avistamos um magnífico pôr-do-sol em meio aos arbustos do Cerrado. Em Ponto Chique conhecemos Seu Raulino dos Santos, típico mineiro desconfiado que vive da roça cultivando mandioca, arroz, feijão e milho. Na conversa, Raulino passou as mãos calejadas pelo rosto e com expressão de sofrimento disse: “No ano passado deu seca. A chuva chegou, rompeu tudo e rebuçou o arroz” – Quis dizer: Depois da estação seca, a chuva veio com intensidade e o excesso das águas encobriu os cachos de arroz, perdendo a safra. Com apenas 4.400 habitantes Ponto Chique é uma cidade com características singulares, possui até xerife. Seu Zé de Abílio, 66 anos, o todo poderoso ordena quem deve ir pra cadeia quando ocorre uma briga por embriagues. Coisas do sertão.

Atravessamos o São Francisco para a margem esquerda e chegamos em São Romão, conhecida como a Mesopotâmia brasileira. A cidade écercada por dois grandes rios, afluentes do São Francisco. Cruzando um destes afluentes, o Urucuia, verificamos outra passagem de Grande Sertão: Veredas. “O Rio Carinhanha é preto, o Paracatu moreno; meu, em belo, éo Urucuia – paz das águas …. É vida!…” Explicando: A travessia deste rio éfeita através de uma balsa. Uma corda fica esticada de uma margem a outra do rio e o condutor da balsa segura esta corda puxando-a. A inércia deste movimento faz com que a balsa se desloque para a margem oposta. Isto ocorre porque as águas do rio são calmas, serenas, quase paradas. Realmente! Guimarães tinha razão: “paz das águas …. É vida!…”

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No deslocamento entre Urucuia e Serra das Araras cruzamos pelo cenário mais bonito da nossa expedição. Uma vegetação de Cerrado nativo cortada por uma estrada de areia que faz com que os pneus do jipe derrapem como se estivessem num tobogã natural. Este Cerrado também preserva uma fauna rica em espécies; algumas sob risco de extinção. Conseguimos avistar uma raposa cruzando a nossa frente. As emas e seriemas fazem deste lugar seu habitat preferido. Segundo João Lira, nosso guia local, é comum encontrarmos emas andando em bandos.

Já o Parque Nacional Grande Sertão Veredas possui uma importância incomensurável para a preservação do ecossistema local. Denotando um oásis, as veredas acumulam água que se transformam em riachos. Estes riachos são formadores dos rios, sendo o principal deles o Rio Preto que vai desaguar no Carinhanha. O Rio Carinhanha é um divisor natural entre a Bahia e Minas Gerais. Nas veredas se desenvolvem os buritis, a mais brasileira das palmeiras, que alem de proteger as nascentes servem como local de pouso e ninhais das varias espécies de aves, como: araras, tucanos, papagaios, periquitos e garças-branca-pequena. O Parque habita ainda veados-campeiro, lobos-guara, suçuaranas, tatus-canastra e tamanduás-bandeira. Claro que não podia faltar o elemento fundamental dos escritos de Guimarães, estou falando dos sertanejos que, apesar de habitarem a área do Parque, sobrevivem aos modos do homem moderno.

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Retornando em direção ao São Francisco, passamos pela cidade de Cônego Marinho e fomos conhecer as mulheres do Candeal. São caboclas que mantém a força de trabalho local, sustentando suas famílias. Com a tradição de mãe para filha, um grupo de mulheres fabrica várias peças em cerâmica, de maneira totalmente artesanal. Elas retiram a terra do próprio local, transportam até o galpão da cooperativa, amassam o barro com os pés e depois confeccionam as peças. No final, as peças são pintadas pelas próprias caboclas, com uma tinta preparada por elas demonstrando a influência indígena remanescente no local.

As mulheres do Candeal andam o tempo todo de pés no chão. Faz parte da cultura local. Elas dizem que a peça (artesanato), fica melhor quando a mulher não esta calçada. O máximo que os homens ajudam é na queima das peças. Alguns se prestam a cuidar dos filhos enquanto as mulheres trabalham.

A expedição foi concluída em Januária. O calor foi sufocante durante todo o percurso e, para encerrar, ao final da tarde fomos às margens do São Francisco tomar uma cerveja, afinal também somos filhos de Deus!!! O local nos privilegiou com um pôr-do-sol magnífico. Tivemos a oportunidade de observar aquele horizonte e apreciar as várias nuances do vermelho do sol refletindo nas águas azuladas do Velho Chico. Foi um momento de intensa reflexão, afinal como dizia Guimarães: “O sertão é sem fim; O sertão é do tamanho do mundo; O sertão ta´ dentro da gente”.

A expedição teve o apoio da: Troller, Trilha SP Máster, Nikon, Camping’s World, Thule, Bags Adventure, Tag Design, Beephoto.com.Br, Planetaoffroad.com.Br, Radio Eldorado e Revista Tribo Off-Road.

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Jurandir Lima

Formado em MBA pela Universidade de São Paulo na área de Engenharia da Qualidade Ambiental. Diretor da Trilhas & Trilhas Ecoturismo, Assessor da Presidência na Associação Brasileira de Esportes de Aventura (ABEA), colunista do site www.trilhaseaventuras.com.br, colunista da seção especialista em expedições do site www.planetaoffroad.com.br. Atua como fotografo da temática natureza e meio-ambiente há 14 anos e já percorreu cerca de 115 mil quilômetros em expedições pelo interior do Brasil, tendo realizado mais de 70 mil fotografias. Vem atuando para promover e ajudar na conservação dos ecossistemas do nosso país.

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Escrito por Mauricio Oliveira

Maurício Oliveira é social media expert, fotógrafo, videomaker, consultor de turismo, blogueiro, influenciador e empreendedor. CEO do Trilhas e Aventuras, conta suas experiências de viagens no blog Viagens Possíveis e criador de inovadoras ações de marketing de turismo, o BlogTur e o VIPBloggers. Ama o que faz no seu trabalho e nas horas vagas também gosta de viajar. Siga no Instagram e no Twitter, curta no Facebook, assista no Youtube e circule Mauricio Oliveira e Trilhas e Aventuras no Google Plus.

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