Dando a volta na Ilha Grande – RJ





Dia 03/01/2002 – Chegando em Palmas:

A nossa preparação para esta viagem foi bem corrida em virtude de estarmos chegando de uma outra viagem, Simone e eu estávamos em Boa Esperança no sítio do meu cunhado passando o Reveillon. Compramos os nossos mantimentos no dia 2 e arrumamos as mochilas no mesmo dia, ficamos sem dormir e chegamos a rodoviária às 4:00 da manhã, fomos até Mangaratiba e pegamos um barco para Palmas, que parecia ter sido fretado por nós, já que só havíamos nós dois no barco.

Chegamos em Palmas e fomos direto para o camping armar a barraca, pois precisávamos dormir, mas depois de nos acomodarmos resolvemos ir até a praia e em seguida fizemos nosso rango, para finalmente nos recolhermos a um descanso que seria interrompido por briga entre paulistas e cariocas, risadas de uma garota que estava drogada e ficou a noite inteira rindo sabe-se lá de que.

Dia 04/01/2002 – Para Caxadaço e avante:

Logo que acordamos presenciamos os mesmos paulistas que haviam brigado na noite anterior se negarem a pagar o camping e acabarem recebendo um sermão da dona do camping, mas não estávamos preocupados com isto, então resolvemos tomar nosso café da manhã, pegar nossas pesadas mochilas e começar a caminhar.

Primeiro passamos pelas praias de Mangue Seco e Pouso para depois chegarmos a Lopes Mendes onde mergulhamos e recebemos duas vezes o saco de lixo que eles estavam distribuindo, pois não haviam nos reconhecido sem as mochilas, logo achando que éramos outras pessoas. Após o banho de mar voltamos para pegar a trilha para Caxadaço que não é sinalizada, nem catalogada como uma das trilhas da Ilha, porém eu não lembrava que esta trilha se encontrava após a entrada para a praia de Santo Antônio, o que nos fez perder algum tempo. Ao encontrarmos a trilha conseguimos prosseguir num ritmo bom até chegarmos a um pequeno riacho há uns trinta minutos de Caxadaço, onde paramos e nos refrescamos um pouco, depois desse riacho a trilha fica um pouco confusa, mas como já conhecia este trecho isso não nos causou problema, chegamos enfim a bela praia de Caxadaço, onde fizemos nossa comida, tomamos banho e armamos mais uma vez nossa barraca.

Não éramos os únicos a acampar lá e durante a noite por duas vezes foram até nossa barraca com uma lanterna, e quando saí da barraca para ver quem era só vi um garoto à frente do feixe de luz da lanterna e uma pessoa atrás que não consegui ver, conferi se nossas roupas que estavam secando nos galhos da árvore estavam no lugar e voltei para a barraca para só acordar no dia seguinte.

Dia 05/01/2002 – O camping perfeito:

Ao acordarmos conferimos se nossas roupas ainda estavam penduradas em cima da barraca e nos galhos de uma árvore, arrumamos nossas mochilas e partimos para Dois Rios, a trilha é tranqüila, mas o início dela é desgastante, é uma subida muito íngreme e o peso que carregávamos nos atrapalhava, mas depois a trilha fica mais agradável, acabamos descobrindo que havia um pequeno vilarejo em Caxadaço antes da construção do presídio, onde havia diversos tipos de plantação. Nesta trilha pra Dois Rios há um trecho com pedras que foi construído pelos escravos na época de D.Pedro.

Chegamos em Dois Rios Por volta das 10:30 da manhã, compramos pão caseiro no vilarejo, sentamos embaixo de uma árvore na frente de um barzinho e descansamos enquanto fazíamos o nosso café da manhã. Fomos para o presídio tirar algumas fotos e depois ficamos um pouco na praia, onde um barqueiro veio oferecer um passeio de barco e churrasquinho, mas o que acabamos aceitando foi o quintal da casa dele para armarmos a barraca já que havíamos gostado de Dois Rios e o tempo ameaçava chover. Desde que chegamos na Ilha ainda não havíamos feito contato com nossas famílias, mas quando estávamos comendo um PF a Simone foi tentar achar um telefone e conseguiu ligar pra minha casa avisando que estava tudo bem.

Fomos para praia esperar o barqueiro que se chama Nico, mas ele não veio, não tem importância, nós fomos atrás e achamos a casa dele e lá aconteceu coisas curiosas, primeiro eu havia comentado com a Simone que o meu camping perfeito teria uma queda d`água natural e uma banheira embaixo e era exatamente o que tinha nos fundos da casa onde acampamos e o estranho é que não estava nos nossos planos dormir em Dois Rios, ou seja não teria encontrado o camping perfeito. Porém houve também outra história curiosa, na casa havia um rapaz que tinha problemas mentais e nós conversamos com ele, que demonstrava ser bastante simpático. Porém no dia seguinte o tênis da Simone sumiu, e ele insistiu que havia sido um cachorro, mas que cachorro iria levar os dois tênis e não deixaria nenhuma marca no chão de terra e nem largaria o tênis jogado no meio do quintal, resolvemos então dar uma volta na vila para esperar a dona da casa, mãe do Nico, chegar, e quando estávamos andando apareceu o Nico perguntando sobre o tênis e falando que ele havia achado um tênis com a mesma descrição do da Simone na praia, dando a entender que teríamos esquecido lá, aceitamos o argumento e fingimos que não estávamos sabendo de nada, afinal o que nos interessava era pegar o tênis para continuarmos nossa caminhada.

Dia 06/01/2002 – A melhor trilha da Ilha:

Saímos de Dois Rios animados após o incidente, pois pensávamos que teríamos que cancelar nossa viagem, fomos pegar a trilha para Parnaióca que começa ao lado do presídio, e logo que entramos na trilha ouvimos o ronco ensurdecedor dos Bujius, um macaco de tamanho médio, mas que faz um barulho estrondoso.

Essa trilha é sem dúvida a mais agradável da Ilha, não há subidas e nem descidas a não ser no final da trilha, é praticamente plana o tempo todo, durante todo o caminho de aproximadamente 3 horas dá pra se ouvir o barulho do mar e vê-lo se perder no horizonte, passamos também por quatro pontos de água, onde pode-se molhar a cabeça e até mesmo mergulhar o corpo em uma delas, passamos também por uma gruta e por um pé de Jequitibá enorme, há muitas cigarras no caminho que ficam passando na nossa frente e cantando o tempo todo, parecendo até estarem dando as boas vindas pra gente, ao menos foi o modo como nós quisemos encarar aquilo. Chegamos a Parnaióca e vimos um pavão preso numa gaiola, o que não combina com um lugar tão bonito como Parnaióca.

Logo que chegamos fomos para o camping, armamos nossa barraca e almoçamos, depois fomos para a cachoeira que tem no final da praia e logo em seguida voltamos pra praia, e é isto o que eu considero o ponto alto de Parnaióca, além de não estar lotada e nem suja, ainda temos a chance de escolher se queremos ir para a praia ou para a cachoeira.

Dia 07/01/2002 – Mendigos em Proveta:

Saímos de Parnaióca e logo quando fomos cruzar a cachoeira a Simone tomou um tombo que a deixou encharcada da cintura pra baixo, pegamos a trilha que nos levaria à Reserva Biológica da Praia do Sul. A Reserva é praticamente deserta já que é proibido passar por ela, mas para a nossa sorte não há controle. O mergulho na praia é inevitável, a água não é quente nem fria, é cristalina, e quanto mais você anda parece que fica mais raso. Porém caminhar nessa praia não é tão bom quanto mergulhar, a areia é muito fina e fofa, quando pisamos o pé afunda e com o peso nas costas afundamos mais ainda. No final da praia há um mangue, por onde eu já havia passado e notei que estava diferente, o nível de água estava menor e a água estava com cor de mate, porém não sei o porquê. Após cruzarmos o mangue, chegamos a Praia do Leste que tem as mesmas características da Praia do Sul só que o mar é mais revolto, chegando ao final da praia tem uma pedreira, passamos por ela e chegamos à Praia do Demo e foi aí que descobri que havia perdido um filme inteiro, pois ele não havia rodado, perdi as fotos desde Dois Rios até esta praia, o que nos deixou muito tristes, pois gostamos desta parte de nossa viagem.

Chegamos em Aventureiro e decidimos que o melhor seria continuar até Proveta para arrumarmos um barco mais barato, pois queríamos fazer um passeio de barco, e também porque Aventureiro é muito cheio e lá há muitas pessoas que se drogam e ficam fazendo merda. Após descansarmos um pouco pegamos a pior trilha de nossa viagem, Aventureiro-Provetá, é muito íngreme e durante muito tempo é só subida e depois só descida. Chegamos em Proveta bem cansados e tomamos um banho no bicão, depois fomos tentar ligar, o orelhão estava quebrado, como estávamos com fome compramos pão, sardinha e maionese, a Simone fez uma pasta de sardinha e isso tudo no meio da praça, parecendo até dois mendigos. Depois de forrarmos a barriga a Simone conseguiu um barco e um lugar para passarmos a noite, o quintal da casa do Seu Jair, o nosso barqueiro.

Dia 08/01/2002 – É melhor ir de barco:

O dia já havia amanhecido há um bom tempo e eu estava estranhando, pois o Seu Jair não havia nos chamado ainda, por volta das 9:00 da manhã ele nos chamou e ficou nos apressando, ajudou até a desmontar a barraca pra irmos mais rápido, pois além de nos levar ele ainda tinha um compromisso em Praia Longa, onde nos deixaria pra continuarmos nossa caminhada.

Primeiro fomos até a Gruta do Acaiá, que fica em uma propriedade particular e eles cobram para entrar, nós pagamos apenas dois reais por pessoa, mas eles sempre tentam cobrar mais caro.

Quando que chegamos não encontramos ninguém em casa, então resolvemos entrar e depois pagaríamos. Logo que fomos entrar na gruta sentimos um vento muito forte e uma escuridão que não se enxerga nada, descemos as pedras que formam o buraco da entrada da gruta e começamos a entrar nela, para isso temos que usar a famosa técnica do esqui-bunda com o auxílio de uma corda. No início a Simone ficou com um pouco de medo, pois no começo não dá pra ver outra coisa se não as pedras da Gruta, mas à medida que vamos descendo o mar começa a aparecer com um azul muito bonito. Fomos até o mar que fica bem raso dentro da gruta, mas com muito cuidado para não ser arrastado por uma correnteza mais forte, apagamos as luzes da lanterna e ficamos apreciando a cor do mar e a escuridão da gruta. Ao sairmos da gruta demos de cara com uma moça não muito simpática que parecia estar tomando conta da casa, mas depois veio um outro rapaz, este mais agradável que até nos ofereceu um banho de mangueira para nos limparmos, depois do banho voltamos para o barco e seguimos viagem.

Passamos por Araçatiba que não despertou muito o nosso interesse e fomos até a Lagoa Verde, que consideramos uma decepção, é interessante ver as pedras por baixo daquela água verde, mas é uma atração para pouco tempo até mesmo porque a água não é muito clara, dali seguimos para o nosso destino, a Praia Longa que de longa não tem nada, nessa praia pegamos uma trilha e fomos até a praia de Ubatubinha, que é uma praia quase particular e que tem também um antigo restaurante, nesta praia pegamos uma trilha que nos levou a enseada de Sítio Forte, onde conhecemos mais um barqueiro e fomos até a Lagoa Azul, esta sim não decepcionou, a água é cristalina e o mar calmo, um convite para um bom mergulho, só lamentamos o fato de nosso barqueiro ser um péssimo fotógrafo, depois fomos até a Ponta dos Macacos, a parte mais perto do continente e em seguida fomos para Freguesia de Santana, onde o banco Boa Vista é dono de tudo menos da praia e da igreja, apesar de que eles pensam que também são donos.

Paramos na igreja de Freguesia de Santana, fizemos um lanche e voltamos a andar, nosso destino era qualquer lugar que tivesse condições para eu montar a barraca, ou seja, uma fonte de água doce, mas a chuva não esperou por isso e fomos obrigados a montar a barraca as pressas na menor praia da Ilha, a Praia do Funil, onde acabamos dormindo e racionando água.

Dia 09/01/2002 – Missão Cumprida:

Acordamos de manhã depois de uma noite de muita chuva e trovoadas e de bichos passando pela barraca, mas quando saí da barraca tive a maior surpresa, a praia estava lotada de urubus que comiam a carniça de um macaco. A nossa vontade era de sair dali o mais rápido possível e foi isso que fizemos.

Fomos pra Saco do Céu, outra decepção, o lugar é um lixo só, uma pobreza muito grande e muitos urubus, nem paramos na praia que estava imunda, passamos ainda pela Enseada das Estrelas, que é bem calma e deserta, ninguém fica ali, pois a praia é pequena e sem atrativos, logo após a última praia da enseada subimos uma escadaria muito cansativa e fomos em busca da Cachoeira da Feiticeira, ao chegarmos a trilha que dá acesso a cachoeira cheguei a ficar desanimado, é uma subida muito íngreme com sol na cabeça e por um terreno desgastado e escorregadio, mas a cachoeira realmente é bonita, só um pouco cheia demais, lá conhecemos um casal que acabamos fazendo amizade. Seguimos pra Abraão agora com a companhia de dois novos amigos, chegamos a Abraão depois de mais ou menos uma hora de caminhada, passando por baixo do Aqueduto construído na época de D. Pedro, paramos numa pequena cachoeira logo após o aqueduto e tomamos o nosso banho, depois fomos almoçar com nossos novos amigos e em seguida pegamos a barca pra Mangaratiba, um ônibus pra Campo Grande e depois um ônibus pra rodoviária, o que nos fez economizar um bom dinheiro.

Autor: Paulo Júnior
E-mail: xjunior@brfree.com.br
Site: http://www.trilhaecia.com.br

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Mauricio Oliveira: Maurício Oliveira é social media expert, consultor e influenciador de turismo e empreendedor. CEO do portal Trilhas e Aventuras, também conta suas experiências de viagens pessoais no blog Viagens Possíveis. Especialista em Expedições na Rota das Emoções e Lençóis Maranhenses. Ama o que faz no seu trabalho e nas horas vagas também gosta de viajar. Siga no Instagram, curta no Facebook, assista no Youtube.

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