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Coluna de André Dib
Aventura no Monte Roraima

Contato: andredib@andredib.com.br
Publicado dia: 3/9/2007
André Dib

Situado no extremo norte do Brasil o Monte Roraima faz divisa com a Venezuela e Guiana, junto com outras montanhas com quase três mil metros de altitude formam os “Tepuies” (como são chamado pelos índios), formações de montanhas como grandes platôs que compõem um cenário exótico em um dos lugares mais antigos do planeta. Estar em cima do Roraima exige preparo físico além de estar pronto a carregar uma boa carga nas costas e ficar alguns dias em barracas longe de qualquer indício de civilização, pois o Parque não possui infra-estrutura.

Boa Vista, capital de Roraima é o primeiro passo pra quem vai fazer a trilha, de lá pega-se um ônibus a cidade de Santa Elena de Uairén na Venezuela a 214Km da cidade de Boa Vista e ainda segue-se mais duas horas em Jipe 4X4 até a aldeia de “Paraitepuy”dos índios Pemóns onde se contrata um guia (obrigatório), e carregadores para quem não estiver disposto a levar sua própria mochila.


Cidade de Boa Vista RR - Margens do Rio Branco



Cidade de Boa Vista RR - Margens do Rio Branco


Muito mais cômodo, porém, é contratar uma agência em Boa Vista que providenciará o transporte do Brasil até a aldeia junto com o guia, carregadores além de preparar toda a logística da empreitada.


Cidade de Boa Vista RR - Margens do Rio Branco


No primeiro dia saímos as 5:30 da manhã rumo a fronteira da Venezuela onde se consegue o visto para a estadia no país, é obrigatório a vacina de febre amarela carimbada na carteira internacional de vacinação. Depois da Aduana seguimos para Santa Elena de Uairén onde trocamos o microônibus por um Jipe, pegamos o restante das provisões e partimos para a aldeia e início da trilha. Da aldeia ao rio Tek, que é o primeiro ponto de acampamento, caminhamos 15 km em duas horas e meia e passamos a primeira noite.


1º dia de Trilha



2º dia de Trilha


O segundo dia de trilha começa com a travessia do rio Tek (Pedra na língua indígena: Taurepang) e logo depois atravessamos um outro rio com a água até a cintura, e devido a correnteza tivemos alguma dificuldade com o peso da mochila nas costas, começamos a subir até o sopé do Monte Roraima com a vista do Kukenán, uma montanha gêmea que se mostrava o tempo todo, já que o Roraima estava encoberto pelas nuvens. O caminho no segundo dia, apesar de mais curto, é muito mais demorado devido a subida até a base do Monte totalizando 9Km em 3 horas até o local de acampamento que é chamado de Base.

Iniciamos enfim a subida ao Monte Roraima pela manhã em baixo de chuva fina, o terceiro dia é o mais difícil pelo desnível abrupto que somado a lama deixa a trilha muito escorregadia. Caminhamos a passos lentos 3,5 horas até o topo do Monte que da base são 5Km.


Cume do Roraima



Cume do Roraima


O cume do Monte Roraima é algo espetacular, estranhos labirintos de rochas negras com formato grotesco compõem com bromélias, plantas carnívoras e orquídeas delicadas, um cenário insólito, que inspirou o inglês Arthur Conan Doyle a escrever o romance “O Mundo Perdido”, baseado em relatos do botânico inglês Everald Im Thurn que em 1884 conquistou o topo do Roraima por uma rota do lado venezuelano, que é até hoje, a única trilha de acesso sem escaladas.

Chegamos ao topo em meio a chuva e uma névoa que deixava o lugar ainda mais misterioso, caminhamos por mais uma hora (3Km) até uma pequena caverna e acampamos de frente para um riozinho de água potável, esses pontos de acampamentos são chamados pelos indígenas de “hotéis”.


Vale dos Cristais


O quarto dia amanheceu com uma forte chuva e segundo a crença dos índios, era obra do Deus “Macunaíma” que habita o Monte Roraima e estaria insatisfeito com a quantidade de pessoas que subiram a Montanha por aqueles dias. Andamos até o Vale dos Cristais, onde se projetam pontiagudas lanças de quartzo por todos os lados e o chão forrado de cristais oferece um dos cenários mais encantadores do trekking, logo depois chegamos ao ponto Tríplice, uma pirâmide de concreto branco marca a fronteira do Brasil que ocupa 5% do Monte, Guiana 15% e os outros 80% do Roraima, que tem 90Km quadrados, pertence a Venezuela. Caminhamos no total de 30Km embaixo da incessante chuva que minava com os escorregões e o frio nossa energia, Chegamos ao acampamento depois de 7 horas de caminhada exaustos e “congelados” devido aos fortes ventos e chuva que fazem com que a sensação térmica despenque.




Recuperados da caminhada e aquecidos saímos da barraca para jantar embaixo de um céu salpicado de estrela que nos prometia, enfim, um dia claro e ensolarado. Mero engano! A mesma e implacável chuva nos despertou pela manhã para encararmos o terceiro e consecutivo dia chuvoso no topo do monte. Partimos para as “Jacuzzis”, piscinas naturais esculpidas pela água em forma de banheiras e apesar do frio não resistimos a um banho, caminhamos depois até “La Ventana” e o “Precipício” em vão pois não enxergávamos nada além de nuvens e quando voltávamos para o acampamento o inesperado aconteceu, as nuvens abriram em poucos minutos e o sol forte nos atingiu. Resolvemos subir até a “Pedra Maverick”, o ponto mais alto do Monte Roraima com seus 2875m tínhamos uma visão espetacular do Kukenán, que segundo os indígenas é uma montanha gêmea ao Roraima, porém com uma energia negativa, um pólo oposto ao seu irmão, onde a grande maioria dos índios se recusam a pisar ou simplesmente abandonam uma expedição ao Kukenán, e sem qualquer motivo aparente largam tudo e descem sem dar explicações. Do “Maverick” víamos do alto um bom pedaço da “Gran Sabana” Venezuela que se assemelha ao cerrado brasileiro, mas, com uma vegetação peculiar onde foi filmado parte do filme “Jurassic Park”.


"Jacuzzis"



Vista da Pedra Maverick - 2878m


Voltamos ao acampamento felizes por ter conseguido, enfim, algumas fotos e ter sentido o calor do sol depois de 3 dias.

No sexto dia arrumamos as coisas para descermos o Monte rumo a civilização, e apesar de um dia nublado, mas sem chuvas, nossa descida foi problemática, devido a trilha muito molhada os tombos foram constantes para todos do grupo. Nesse dia descemos um desnível de 1800m em 17Km de caminhada que durou em torno de quatro horas e meia até as margens do Rio Tek novamente onde acampamos e retomamos a trilha no sétimo dia rumo a aldeia de “Paraitepuy” a 15km que fizemos em aproximadamente duas horas e meia e finalizamos o Trekking.

A trilha do Monte Roraima é muito mais que uma trilha a quem está acostumado a andar vários dias por trechos íngrimes ou subindo montanhas, é uma prova viva de que a América fez parte da África devido aos fósseis só encontrados nos Tepuies e no Saara. Muito mais que isso, subir o Monte é ingressar em um mundo totalmente desconhecido e misterioso, envolto em uma sinistra neblina, a chuva e o frio é uma constante , para os “Pémons” ele é a mãe de todas as águas. Roraima, na língua indígena, significa Pedra azul.


Monte Kukenan


O Monte já foi procurado nos séculos passados por muitos exploradores na esperança de achar a lendária cidade perdida de “Eldorado”,entre outras lendas alimentadas pelos índios que instigam visitantes a ouvir gritos e estranhos sons, a sentir coisas inexplicáveis e a sonhar como nunca em seu cume. Estar lá é voltarmos a um passado imaginário em um mundo jurássico, em meio aos guardiões de pedras negras enfeitadas por mais de 2000 tipos de plantas, que por causa do isolamento de milhares de anos tiveram que se adaptar ao lugar com sua falta de nutrientes ao meio dos labirintos de pedra que instiga estranhos temores aos “Pemons” que exerce uma vida simbiótica junto ao monte.


André Dib




Autor: André Dib
E-mail: andredib@andredib.com.br
Site: http://www.andredib.com.br

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